Porque não entrou em crise a indústria do armamento?

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Primeira sessão, sala cheia no Teatro Baltazar Dias, no Funchal, para a inauguração da sexta edição do Festival Literário da Madeira. Mia Couto foi o homenageado e o convidado da primeira conversa do festival que este ano tem como tema “Falsidade e Verdade”.

Numa entrevista conduzida pelo jornalista Fernando Alves, Mia Couto falou da questão do medo. “Fomos concebidos para ter medo de não saber”, afirmou o autor, que confessou esquecer-se muitas vezes daquilo que já escreveu. Para o escritor moçambicano, “a grande ameaça está dentro de nós”, é lá que residem “os maiores inimigos”. Admitiu ter um “medo desgraçado” do que está dentro de si.

Numa conversa que durou mais de uma hora, em que Mia Couto foi falando de si mas também da sua escrita, o público ficou a saber que o escritor sofre de insónias e que, por vezes, tem um “caderninho” onde vai apontando algumas ideias porque diz “estar disponível para receber as histórias”.

A escrever o segundo livro da trilogia “As Areias do Imperador”, depois de ter lançado em 2015 o primeiro volume “Mulheres de Cinza”, Mia Couto regressou ao tema do medo na conversa ao afirmar que “hoje o medo é a maior produção mundial”.

Para Mia, “as pessoas têm de desistir de ser cidadãos”. E deu o exemplo: “Nós para entrar num aeroporto ou avião hoje em dia temos quase de entregar o corpo e a alma em nome da segurança. E pensamos que a solução é essa, a da construção de um inimigo”.

Processo criativo caótico

Sem falar em questões como os atentados de Paris ou Bruxelas, o autor de “Terra Sonâmbula” falou da “necessidade absoluta da construção do medo” e comparou os homens de hoje aos soldados que não fazem perguntas e concluiu com uma questão que arrancou as palmas do público: “Porque é que a indústria do armamento não entrou em crise financeira?”

A primeira sessão do Festival Literário da Madeira, que terminou com uma sessão de autógrafos improvisada à saída do palco, levou também o público a saber mais sobre a escrita de Mia Couto.

O escritor, que se deixou levar pela conversa do seu entrevistador, falou do modo “caótico” do seu processo criativo e explicou que quando termina um livro tem de fazer “uma morte simbólica” para se livrar das suas personagens.

Para o também poeta, editado em Portugal pela Caminho, tem de cortar com as histórias que escreve. Só esse “desligar” lhe permite partir para outra história. Mia Couto diz ser “eficiente nesse apagamento”.

Questionado sobre quantas vidas tinha o escritor, Mia Couto disse não saber, mas assegurou: “Todos os dias tenho muitas”. Essas vidas dependem da “disponibilidade de nos deixarmos possuir” por diferentes personagens. Aqui fez uma ressalva: “Em África isso é normal”, aqui “torna-se demoníaco” essa ideia de ser possuído por vários personagens. Talvez por isso tenha terminado a ideia com a frase enigmática “Não sei se o verbo viver chega”.

Fonte : rr.sapo

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