O país que prendeu banqueiros e demitiu dois primeiros-ministros

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ng7774595Manifestação em abril em Reiquejavique pedindo a demissão do então primeiro-ministro Gunnlaugsson |  REUTERS

Sociedade pequena, flexível e dinâmica, islandeses mudam com grande rapidez. Desde a crise foram presos 29 banqueiros e um ex-chefe do governo foi levado a tribunal.

Muito usado como forma de protesto nos últimos tempos contra Dilma Rousseff e Michel Temer, o panelaço não é, porém, específico das manifestações no Brasil. Muito antes, na Islândia, país dos vulcões que foram capazes de deixar a UE paralisada durante dias a fio, os tachos e as panelas eram presença constante nas manifestações contra o governo de Geir Haarde, assim que, tal como os vulcões, a crise financeira explodiu com toda a força e de forma incontrolável nesta pequena ilha de 325 mil habitantes.

Estava-se no final de 2008 e, no início do ano seguinte, Haarde e o seu governo foram forçados a demitir-se por causa da pressão do descontentamento popular. Membro do Partido da Independência, Haarde, hoje em dia embaixador, destacado na Argentina, tornou-se o primeiro primeiro-ministro a nível mundial a ser levado a julgamento por negligência na gestão do colapso do país. Em 2012, um tribunal especial considerou-o culpado de negligência. Esta sentença não implicou, porém, qualquer pena e as custas acabaram por ser pagas pelo Estado.

A reação da Islândia à crise financeira de 2008 é já considerada um case study mundial. No auge da crise a ilha impôs o controlo de capitais e teve de nacionalizar três dos seus bancos. A coroa islandesa desvalorizou 85% face ao euro e o país entrou em falência. No caso do banco Icesave, o então presidente islandês Ólafur Grimsson vetou o acordo de indemnização ao Reino Unido e à Holanda quanto às perdas da sucursal online do banco islandês e, em referendo, a população apoiou a sua decisão.

Na altura, os islandeses recusaram-se a pagar a fatura dos bancos, saíram dos mercados, a riqueza do país caiu 10% em dois anos, o desemprego atingiu os 11,9%. Em maio deste ano, o número de banqueiros islandeses que foram parar à prisão já ia em 29. Um mês antes, eis que os islandeses voltaram à rua para forçar um outro primeiro-ministro a demitir-se: Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, líder do Partido Progressista, fora apanhado nos Papéis do Panamá. A investigação jornalística internacional revelou que o então chefe do governo criou uma empresa offshore, a Wintris, com a mulher, em 2007, passando-lhe a sua parte das ações (50%) por um dólar em 2009. A Wintris tinha investimentos nos três bancos islandeses que colapsaram na crise financeira de 2008, sendo um dos credores que exigem agora milhões de dólares no processo de falência. Furiosos, mais uma vez os islandeses saíram à rua, batendo em tachos e panelas.

“No que toca à demissão de dois primeiros-ministros, sim, penso que a forma como os eleitores demonstraram o seu descontentamento na Islândia e o facto de o governo ter respondido ao seu descontentamento é um exemplo de boa interação entre os eleitores e os seus representantes”, diz ao DN Ragnheiður Kristjánsdóttir, professora da Universidade da Islândia. “É todo o sistema político e político-financeiro que se descredibiliza e leva à revolta da população. O Partido dos Piratas, criado como movimento de protesto, defensor de liberdade de acesso à internet, das liberdades cívicas e de mais transparência na política, lidera as sondagens e está à beira de se tornar o primeiro partido do pequeno país. Também a Islândia, afinal, não escapa à onda de revolta contra os partidos tradicionais”, constata Paulo de Almeida Sande, ex–diretor do gabinete do Parlamento Europeu em Portugal. Mas como lembra Kristjánsdóttir: “A Islândia é uma sociedade pequena, flexível e dinâmica. Isso significa mudanças drásticas e de forma rápida… Para o bem e para mal.”

via :DN

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